quarta-feira, 7 de setembro de 2016

De motorhome, enófilo de MG passa por 43 países em busca de vinícolas

Mineiro de Varginha e os dois filhos passaram 2 anos e meio viajando.
Trio experimentou quase 3 mil vinhos nas Américas, Europa e Oceania.




Sabe aquelas histórias da pessoa que tem um hobby, que vira profissão, que permite que ela conheça (quase) o mundo todo trabalhando como se fosse lazer? Pois é: essa é a história do enófilo – ou apreciador de vinhos – Horácio Morais Barros, de 63 anos. Por quase 2 anos e meio, ele e os dois filhos viajaram em um motorhome com a única missão de conhecer as regiões vinícolas dos quatro cantos do mundo. Quarenta e três países, 90 mil quilômetros e 2.951 vinhos depois, o enófilo agora divide a experiência com os brasileiros em cursos e palestras pelo país, além de um clube do vinho na internet.
Horácio Barros no Brasil, enófilo, Varginha (Foto: Pedro Henrique Barros/Wine World Adventure)Horácio Barros ao lado da filha visitando uma das vinícolas no Sul do Brasil (Foto: Pedro Henrique Barros/Wine World Adventure)
Barros nasceu e cresceu em Varginha, no Sul de Minas, de onde só saiu para estudar engenharia em Belo Horizonte (MG). Passou toda a vida profissional em uma grande empresa do setor siderúrgico. E ao contrário do que seria esperado, o vinho não foi o primeiro amor na vida de Barros. "Antes eu só bebia cerveja, não entendia nada de vinho", brinca o enófilo. Só pouco depois de completar 40 anos é que ele resolveu fazer, por curiosidade, um curso de vinhos, e foi assim que essa história começou.
Natália, Horácio e Pedro na Itália, varginha (Foto: World Wine Adventure / Divulgação)Natália, Horácio e Pedro na Itália
(Foto: World Wine Adventure / Divulgação)
“Gostei demais e passei a fazer outros cursos de níveis mais avançados. Participei de feiras, encontros e degustações. Aí começou a brincadeira de ensinar para os parentes (risos) e depois, comecei a dar cursos. Fiquei uns quatro anos dando cursos em Belo Horizonte e no interior. E eu gosto muito de história, geografia, sempre gostei. E vi que dentro dos vinhos há muito disso", conta.
O projeto de correr o mundo em busca dos sabores da bebida só veio com a aposentadoria. Um ano e meio antes de dar baixa na carteira de trabalho, Barros planejou todo o roteiro para conhecer as principais vinícolas do mundo. Elaborou um projeto para se tornar o único “experimentador itinerante” da bebida no planeta e o apresentou a uma empresa do setor automobilístico. A firma embarcou e forneceu ‘na faixa’ o motorhome para a viagem.
“Eles queriam mostrar que o chassi deles dava pra fazer uma casa. E aí eles fizeram a propaganda em cima do motorhome, e cuidavam da divulgação da viagem”, conta. Os custos com a viagem em si ficaram por conta do enófilo, que juntou as economias após mais de 30 anos de trabalho.
Família costumava estacionar motorhome próximo às vinícolas para passar a noite; na foto, veículo na França, varginha  (Foto: Pedro Henrique Barros/Wine World Adventure)Família costumava estacionar motorhome próximo às vinícolas para passar a noite; na foto, veículo na França (Foto: Pedro Henrique Barros/Wine World Adventure)
Além de levar uma casa em busca dos vinhos, a equipe formada para a aventura saiu da família. O filho Pedro Henrique Barros, publicitário, hoje com 28 anos, assumiu a cobertura fotográfica do percurso. A filha Natália Barros, de 30 anos, fisioterapeuta, assumiu a produção da viagem e edições de vídeos, imagens e texto relatando as aventuras no site do projeto. E assim, no dia 26 de dezembro de 2011, Barros e família partiam para o universo da “bebida dos deuses”.
Dica do Horácio:
Identificando bons vinhos

A maioria dos bons vinhos são secos, mas há vinhos de sobremesa (suave) fantásticos. Para verificar na garrafa se o vinho é bom: se estiver escrito vinho fino de mesa, significa que é feito da uva Vitis vinifera europeia, vinho de boa qualidade. Se estiver vinho suave, é feito de Vitis americana, não muito recomendável, porque não tem a qualidade ideal.
Por onde andei
O roteiro começou por solo brasileiro. A família seguiu rumo ao sul para conhecer as vinícolas de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. As visitas eram agendadas antes, mas no meio do caminho, algumas vinícolas descobertas no percurso entravam na programação e outras ficavam para uma próxima vez.
A ideia era experimentar as principais produções do mundo e aprender sobre suas características, as peculiaridades do lugar que tornam a bebida única em cada região.
“O programa era visitar três vinícolas por dia. Mas chegava lá, o povo não deixava a gente sair. Ainda bem que não fiz [todas essas visitas por dia], senão ia ficar doido [risos]”, brinca.
Depois de sair do Brasil, eles seguiram pelo Uruguai, Argentina e Chile, partindo dali para os Estados Unidos e Canadá. Em seguida, passaram para o “lado de lá”, na Europa e Oceania. Para não perder tempo com as burocracias do trajeto, Barros contratou uma empresa para os trâmites legais na entrada de cada país.
Vinhos, viagem, Varginha (Foto: Pedro Henrique Barros/Wine World Adventure)
Ao “pular” para a Europa, eles ficaram um ano e pouco pelo continente, passando por Alemanha, França, Romênia, Eslováquia, Croácia, entre outros países, e na Oceania, por países como a Nova Zelândia e Austrália.
Vinícola por onde a família passou no Uruguai, varginha (Foto: Pedro Henrique Barros/Wine World Adventure)Vinícola por onde a família passou no Uruguai
(Foto: Pedro Barros/Wine World Adventure)
Em todo o trajeto, Barros insiste que é impossível citar um vinho sequer que seja eleito seu preferido, mas alguns se tornaram memoráveis pela história da bebida. “O primeiro vinho que tomei em Bordeaux”, elege como exemplo. “O sonho de qualquer enófilo é chegar em Bordeaux e tomar um Premier Grand Cru Classé [classificação de alguns dos melhores vinhos franceses]. Então quando eu tomei o primeiro lá na França, isso marca.”
Outro momento foi quando chegaram em Ushuaia (na Patagônia argentina), que foi o primeiro extremo continental que eles alcançaram. “Era sábado de carnaval, entramos na cidade tocando um CD de carnaval e paramos na praça. Foi a primeira etapa cumprida. Ainda mais que pra chegar lá a estrada era cheia de pedrinhas. Nós andamos mais de 200 km a 30 km/h com esse motorhome”, lembra Barros.
Rotinas do itinerário
E por falar em desafios, eles já começavam dentro “de casa”. Afinal, a convivência era 24 horas por dia e pelo menos metade delas em um espaço mínimo de um veículo. Pai e filho se revezavam na direção do motorhome. Na hora de dormir, os três se dividiam nos compartimentos disponíveis: Barros na cama acima do volante do motorhome, e os dois filhos revezavam semanalmente a cama de casal do veículo com a de solteiro na área de refeições. “Fizemos assim pra não dar mais briga [entre os dois] (risos)”, explica.
Dica do Horácio:
Vinhos x queijos

Para o queijo mussarela, tem que ser o vinho branco. Queijo azul, como o Roquefort e Gorgonzola, combina com vinho de sobremesa ou vinho do Porto. Queijos mais picantes, vinho tinto. A maioria dos queijos harmoniza com o vinho branco.
Durante todo este tempo, somente em algumas noites eles dormiram em hoteis, que era a oportunidade de descansar um pouco depois de longas noites “acampados” em um trailer.
Banho? Somente “de gato”, pra não acabar a bateria e a água da “casa”. O motorhome tem capacidade pra armazenar 320 litros de água, e para conseguir abastecê-lo, Barros desenvolveu a “estratégia” de sempre deixá-lo em 50% para pedir água nos postos quando enchia o tanque de gasolina.
“Muita gente negava água, não dava. Demorava quase 1h para abastecer [o motorhome] de água. Muita gente queria dar o combustível e que a gente pagasse a água (risos)”, brinca, se referindo principalmente ao alto custo e escassez de água na Europa. “Teve um dia que a gente não aguentou. Ninguém dava água pra gente. Aí nós entramos num condomínio de luxo e tinha uma capela com uma mangueira. A gente foi lá e ‘roubou’ água da igreja. Não teve outro jeito (risos).”
Horácio Barros experimenta vinho francês durante viagem ao mundo, varginha (Foto: Pedro Henrique Barros/Wine World Adventure)Horácio Barros experimenta vinho francês durante viagem ao mundo (Foto: Pedro Henrique Barros/Wine World Adventure)
Como o motorhome foi fabricado do Brasil, eles tiveram que comprar um aquecedor a gás, porque não tinha calefação no veículo. “Aí não podia ficar com o carro inteiro fechado, senão acabava o oxigênio e a gente morria. Então deixava a janela aberta [mesmo no frio da França]”, conta Barros.
A rotina era tomar um café da manhã reforçado, visitar as vinícolas durante todo o dia, aproveitando para experimentar as comidas locais de cada país, e à noite descansar. Na televisão, somente assistiam filmes, muitos filmes...
“Rimos muito, divertimos muito, brigamos muito. Uma vez, depois de uma briga, minha filha saiu na estrada [brava], já que não tinha como trancar em um quarto (risos)”, conta.
Mulher trabalha em vinícola no Chile, varginha (Foto: Pedro Henrique Barros/Wine World Adventure)Mulher trabalha em vinícola no Chile (Foto: Pedro
Henrique Barros/Wine World Adventure)
Tsunamis, furacões...
Mas nenhuma aventura que se preze passa sem alguns reveses. O primeiro deles – e mais leve – foi vivido logo no início da viagem. Eles estavam em Valparaíso, no Chile, dormindo em um posto de combustíveis em frente à praia, quando foram despertados por um policial. “Acordamos e levamos um susto com a polícia ali. Ele pedia pra todo mundo evacuar porque tinha previsão de tsunami”, lembra. O susto acabou sendo só um susto mesmo, e eles terminaram a noite com a cidade inteira reunida em cima de um morro esperando a água que não veio.
Horácio Barros em vinícola argentina, varginha (Foto: Pedro Henrique Barros/Wine World Adventure)Horácio Barros em vinícola argentina (Foto: Pedro
Henrique Barros/Wine World Adventure)
Ainda na América Latina, a família se perdeu no meio da Patagônia argentina atrás de uma pequena vinícola, que não faz marketing ou divulgação alguma, mas que produz o melhor malbec da Argentina – nas palavras de Barros. “O caminho era tudo de pedra e o motorhome teve que andar muito devagar, assim, a 30 km/h. Nós não achávamos de jeito nenhum, nos perdemos. Já tinha passado quase quatro horas do horário agendado”, conta.
Quando a situação poderia ficar muito séria, passaram dois policiais de moto. Na dificuldade em explicar o caminho na imensidão da Patagônia, eles acabaram levando a família até lá de comboio. “Quando nós chegamos lá com os policiais, [os vinicultores] não entenderam nada (risos)”, lembra Barros.
Mas a coisa ficou feia mesmo quando a família passava pela Nova Zelândia, na ilha Sul. O motorhome seguia seu caminho pela estrada quando Barros viu longe o céu ficando muito negro. “Era um negócio muito diferente, com movimentações [no céu]. Aí começou uma ventania. Eu pensei: ‘estou preocupado com esse negócio’”, lembra Barros.
Família se perdeu na Patagônia Argentina ao buscar vinícola lendária, varginha (Foto: Pedro Henrique Barros/Wine World Adventure)Família se perdeu na Patagônia Argentina ao buscar vinícola lendária (Foto: Pedro Henrique Barros/Wine World Adventure)
Ao parar em um posto de combustíveis, um funcionário começou a gritar para eles saírem dali. A filha de uma mulher que abastecia o carro no local apontou e avisou que, simplesmente, um tornado se aproximava de uma pequena cidade que ficava nos arredores do posto.
“Aí eu gritei pra entrar todo mundo no motorhome. O Pedro saiu correndo e ficou debaixo da marquise. A Natália entrou para o posto e eu fiquei dentro do motorhome. Aí foi uma trepidação violenta, uma chuva de pedras, é de assustar. Ele passou a dois km e pouco [de onde a gente estava]. Se passa no olho, o motorhome, ia destruir muita coisa”, lembra.
...e turistando em uma guerra civil
Mas, antes de finalizar as aventuras, Barros conta mais uma. Lembra que eles só assistiam filmes na viagem? Pois é. Passando por Istambul, surgiu uma antiga vontade de conhecer as pirâmides do Egito. Barros acordou cedo e chamou os filhos para dar uma pausa nas vinícolas e fazer um pouco de turismo. Deixaram o motorhome e resolveram que seria melhor ir de avião – que, aliás, as passagens estavam em um preço ótimo. Compraram o voo da meia-noite para ficar três dias no país.
Pedro Henrique e o pai Horácio em vinícola nos Estados Unidos, varginha (Foto: Wine World Adventure / Divulgação)Pedro Henrique e o pai Horácio em vinícola nos Estados Unidos (Foto: Wine World Adventure / Divulgação)
Vinícola visitada na Espanha durante viagem, varginha (Foto: Pedro Henrique Barros/Wine World Adventure)Vinícola visitada na Espanha durante viagem (Foto: Pedro Henrique Barros/Wine World Adventure)
“Entramos no avião e estamos lá, nós três. E não entra ninguém (risos). Fomos embora”, conta Barros. “Chegamos lá era umas 4h, pegamos um taxista safado que começou a dar voltas com a gente, e começamos a ver alguns tanques na rua. E o ‘cara’ não falava nada de inglês.”
Ao dar o nome do hotel onde eles tinham feito a reserva, eles descobriram que ele não existia. A família tinha caído num golpe na internet. “Eu já estava ficando preocupado, aí eu falei o primeiro nome americano que veio na minha cabeça”, continua. Aliviados, o taxista levou eles até o hotel americano no Cairo.
Natália na França, Don Perignon, varginha (Foto: Pedro Henrique Barros/Wine World Adventure)
Após algumas horas de sono, Barros acordou e percebeu que o hotel estava vazio. “Aí tinha dois homens conversando [na recepção]. Começamos a conversar com eles e aí eu perguntei: o que está acontecendo? Aí eles falaram: ‘você não está sabendo não? Nós estamos em guerra civil’ (risos).”
Bom, depois de ir tão longe, eles não queriam deixar de conhecer o Cairo. Ao negociar com a gerência, eles contrataram uma empresa para levá-los do hotel para as pirâmides e do hotel para o museu do Cairo. Só. Mais do que isso, era risco de ficar pra sempre no Egito. E eles foram, e obviamente, também foram os únicos fazendo turismo no país.
Uma das visitas na Itália, varginha (Foto: Pedro Henrique Barros/Wine World Adventure)Uma das visitas na Itália (Foto: Pedro Henrique
Barros/Wine World Adventure)
“Lá nas pirâmides tem uma área para a plateia ficar, deve ter umas 5 mil cadeiras. E eu fui à noite e de dia, porque à noite eles têm uma apresentação lindíssima de jogo de luzes com música. Se tiver um turista, eles têm que passar. E foi passado pra seis turistas [a família, os dois homens do hotel e o motorista]. Você olhava aquela quantidade de cadeiras e só nós seis lá, com aqueles tanques de guerra cercando as pirâmides (risos)”, finaliza.
Saldo final
O motorhome voltou ao solo brasileiro no dia 12 de março de 2014. Em mais de dois anos e meio, o saldo final foi de quatro continentes, 43 países, 90 mil quilômetros rodados, 162 vinícolas visitadas e 2.951 vinhos apreciados.
Com a volta, Barros transformou o prazer em trabalho e o motorhome se tornou uma escola itinerante de vinhos. O enófilo roda o país dando cursos para descomplicar e desmistificar o consumo da bebida, ensinando a consumir bom vinho tanto a iniciantes como apreciadores avançados. Em junho, durante duas semanas, ele passou por sete cidades do Sul de Minas dando o curso de degustação de vinhos.
Recentemente, Barros também criou com a filha um clube de vinhos, onde todos os meses os sócios recebem uma garrafa das principais regiões vinícolas do mundo. Os sócios podem optar por planos mais acessíveis ou refinados. Tudo por amor ao vinho.
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Família passou por 43 países visitando vinícolas; na foto, Chile, varginha (Foto: Pedro Henrique Barros/Wine World Adventure)Família passou por 43 países visitando vinícolas; na foto, Chile (Foto: Pedro Henrique Barros/Wine World Adventure)



Fonte G1 e Wine World Adventure

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